Crônica mostra a evolução dos dutos de grês para os de PVC e polietileno

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- 12/08/2016

Por Joaquim Fanton*

Quem nunca trabalhou com cabos multipares sequer imagina que seu peso era um fator de extrema importância no método de instalação. Cabos ópticos são extremamente leves e delgados. Seu diâmetro varia entre 8 mm e 20 mm e seu peso é da ordem de 150 gramas por metro. Cabos multipares tinham diâmetros entre 20 mm e 70 mm e seu peso variava entre 500 gramas e 7 kg por metro.

Em uma instalação aérea, um cabo óptico representa um peso de 6 kg em um vão de 40 metros. Nesse mesmo vão, um cabo multipar de 200 pares pesa 115 kg. Por esse motivo, redes telefônicas constituídas de cabos multipares usavam extensivamente canalizações subterrâneas.

Essa introdução se fez necessária, já que essa história versa sobre materiais utilizados em canalizações subterrâneas para cabos de telecomunicações.

Assim que terminou a Segunda Guerra Mundial, o mundo começou a ser inundado com novas matérias-primas. Borrachas sintéticas, polietileno, polipropileno, poliestireno, acetatos, acrilatos, vinil e por aí afora.

A presente história contempla apenas um entre milhares de casos onde novos materiais revolucionaram o mercado. Refiro-me a dutos de PVC, que substituíram os tradicionais dutos de grês, que vinham sendo usados no Brasil e no mundo desde que Graham Bell inventara o telefone.

O desenho ao lado foi tirado da Prática Telebrás, 235-201-708, série rede, emitida em outubro de 1976. Na ocasião, dutos de grês estavam sendo usados apenas em recuperações de trechos existentes e em manutenção. Estavam em processo de extinção.

Uma peça de seis furos com um metro de comprimento pesava 60 kg. Apenas para exemplificar, um quilômetro de canalização de seis furos consumia mil unidades, ou seja, requeria que uma carga de 60 toneladas fosse transportada até o local da obra. O alinhamento entre peças era feito por dois pinos de aço introduzidos nos furos que aparecem no corte e a vala precisava ter 50 cm de largura para criar espaço de trabalho adequado para os pedreiros. Sim, eram usados pedreiros no assentamento dos dutos, que requeriam a colocação prévia de uma camada de argila compactada e nivelada. Por ser frágil à compressão, era quase padrão a prática de “envelopar” as travessias com concreto. Pelo peso, o assentamento requeria três homens. Antes do “embolsamento” com massa de cimento, era necessário enrolar uma faixa de tecido de algodão no ponto de junção para evitar a penetração de cimento no duto. Para resumir, embora a manilha de grês fosse relativamente barata, sua utilização exigia muita logística e o método de construção era difícil e complicado. Tudo isso tornava o preço do quilômetro construído bem alto!

Quando comecei a trabalhar na Telepar, ainda eram usados dutos de grês. A maioria das cidades que ficaram sob minha responsabilidade era de pequeno porte e, nelas, seriam construídas redes aéreas. Mas herdei também algumas cidades grandes, que exigiam a construção de canalizações subterrâneas. Entre elas, estava Cascavel, uma das primeiras que projetei e construí. O projeto previa a construção de apenas 1.400 metros de dutos de grês de quatro furos (chamados DM-4).

Mandei para lá nosso melhor e único empreiteiro de dutos, Lourival Frelik. Foram enviados para Cascavel seis caminhões carregados de dutos DM-4. Guarapuava fica a 225 quilômetros de Curitiba. De lá até Cascavel, são mais 220 quilômetros. O primeiro trecho já era asfaltado, mas, o segundo era de terra. Passado um mês, Lourival me ligou pedindo mais dutos DM-4. Providenciei mais um caminhão com 250 peças. Uma carga de dez toneladas. Na semana seguinte, novo telefonema. Continuava faltando manilha. Dessa vez, quis saber o que estava acontecendo. “Tem muito buraco no trecho Guarapuava - Cascavel e quase todas as manilhas estão chegando quebradas”, explicou Lourival. Em resumo, uma obra onde foram aplicadas 1.400 peças exigiu a compra e o transporte de 2.000. Seiscentas unidades quebraram no transporte. Somando-se o atraso, o preço da obra praticamente dobrou.

Alguém me contou que uma companhia telefônica que operava na região do ABC paulista estava usando dutos de PVC. Fui lá para ver e gostei. Uma barra de 6 metros equivalia a um DM-6, ou a 1,5 DM-4. O preço do PVC era mais caro na época, mas as vantagens eram muitas. Por exemplo, em um trecho de 120 metros de canalização, em vez de 120 embolsamentos feitos dentro da vala, eram realizadas 24 conexões com cola, fora da vala. Só após a conexão, os dutos eram colocados na vala. Com isso, as valas podiam ser mais estreitas. Tinham 40 centímetros e só isso representava 20% a menos no volume de escavação e no custo de repavimentação.

Lembrei que um colega de curso, que havia se formado engenheiro civil, tinha ido trabalhar na Tigre. Combinamos realizar uma construção experimental em cooperação. A Tigre possuía uma frota de caminhões para transportar seus produtos. Para diminuir o preço do transporte, reduzimos a espessura de parede e decidimos usar dois diâmetros: 100 mm e 75 mm. Dutos de 100 mm para cabos com capacidade acima de 600 pares. Dutos de 75 mm para cabos abaixo de 600 pares. Estimamos que as quantidades em metros se dividiriam mais ou menos ao meio. Como o volume máximo de carga seria atingido muito antes do limite de peso, a ideia dos dois diâmetros era colocar no caminhão primeiro os dutos de 100 mm. Em seguida, os dutos de 75 mm eram enfiados dentro dos primeiros. Na maioria das obras que fizemos no interior, um único caminhão foi suficiente para transportar todos os dutos.

Para evitar que a pequena espessura resultasse em amassamentos durante a compactação, decidimos tamponar as pontas dos dutos e pressurizá-los durante a obra. A construção experimental ocorreu em Pato Branco. Correu tudo bem e a Telepar padronizou o uso de dutos de PVC em suas redes subterrâneas. Com o tempo, o preço do PVC baixou e a espessura dos tubos foi aumentada. Acabou a necessidade de pressurizar. Dutos de barro ficaram restritos à manutenção de linhas existentes. É claro que tivemos que enfrentar alguns problemas criados pelos fabricantes de dutos de grês. Mas essa é outra história.

Com o tempo, surgiram outros termoplásticos. Já faz pelo menos duas décadas que dutos de PVC não são mais usados em canalizações de telecomunicações. Foram introduzidos tubos de polietileno e polipropileno, que são flexíveis. Ninguém mais fala mais em “barras” de dutos. Agora se diz “bobinas”, que são fornecidas com centenas de metros. Há dutos lisos e corrugados. Há dutos singelos e múltiplos. Para facilitar sua identificação, os dutos recebem numeração impressa ou são coloridos. A única desvantagem que os novos termoplásticos apresentam com relação ao PVC é que não podem ser colados. Polietileno e polipropileno exigem conexões mecânicas.

Nesse exato momento, está chegando ao Brasil uma nova família de dutos. Tratam-se de microdutos, com diâmetros entre 4 mm e 15 mm, destinados a receber microcabos ópticos. Microcabos não podem ser tracionados. São lançados por sopramento. Essa técnica será objeto de outra história!

* Joaquim Fanton é engenheiro eletricista pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), com 38 anos de experiência em redes ópticas. Foi engenheiro de redes da Companhia de Telecomunicações do Paraná (Telepar), da Telecomunicações de São Paulo (Telesp), da Telebrás e do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD). Hoje, atua como consultor da RNP e participa da implantação de redes metropolitanas em fibra óptica, no âmbito do Programa Cidades Digitais. Ao percorrer o interior do país, acumulou histórias que serão compartilhadas no site da RNP.

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