Evento também abordou a formação de jovens, soberania digital e os 20 anos da RUTE e da ESR
“Está todo mundo falando sobre IA, mas é preciso lembrar que estamos na era da internet discada da inteligência artificial.” A comparação foi feita pelo especialista em Tecnologia e Inovação Arthur Igreja durante o último dia do Fórum RNP 2026. Em sua apresentação, o keynote speaker discutiu os impactos da IA sobre trabalho, educação, ciência e relações sociais, além do papel humano nessa transformação.
Igreja considera que a tecnologia passa por diferentes fases: primeiro se torna um diferencial, depois uma linha de corte e, no longo prazo, uma commodity. Segundo ele, essa zona de ruptura é confusa e é preciso cuidado com a ideia de que a IA será capaz de resolver qualquer problema.
“Tem uma confusão que muitos fazem, que inovação e pesquisa são sinônimos de tecnologia. Na minha visão, a inovação é encontrar resultados melhores. E, por vezes, o excesso de tecnologia ou o emprego da tecnologia do momento traz resultados piores. Estou vendo o mundo afora dizendo que qualquer coisa será resolvida pela IA. E as pessoas não têm a noção que a IA em 2026 é incrível, mas num espectro de atuação muito estreito”, explicou.

Para o especialista, a expansão da IA torna ainda mais importante o repertório e a capacidade crítica das pessoas, já que a tecnologia assume tarefas de execução. “Posso ter uma IA que faça 900 artigos em meu nome, mas a reputação continua sendo a minha. O nome, quem assina e quem valida continua sendo o ser humano. E aí temos o problema. Se a pessoa não tiver o repertório offline, ela não consegue ser o botão de emergência. Não consegue ter senso crítico. Não consegue ter a validação”.
Formação, inclusão e diversidade
Outro painel tratou de como os jovens podem se preparar para trabalhar com IA e ciência de dados. Kizzy Terra e Hallison Paz destacaram como formação, inclusão e diversidade ampliam a capacidade do Brasil de criar tecnologias e produzir conhecimento, fortalecendo a soberania digital. A partir de suas experiências, apresentaram iniciativas de capacitação em IA e defenderam o protagonismo dos jovens.

“Não existe soberania digital sem ciência. Isso é um consenso. E também não existe ciência sem cientistas. Embora a realidade e a natureza existam independentemente dos seres humanos, a ciência, enquanto abstração que criamos para compreender nossa relação com o mundo, é uma coisa humana”, explicou Paz.
“As pessoas são importantes para o futuro. Uma boa notícia é que o Brasil tem mais de 210 milhões de pessoas. Agora, a má notícia é que não teremos soberania digital se essas pessoas, ou boa parte delas, se convencerem de que seu lugar na corrida da IA é o de criadoras de prompts. Apenas fazer prompts, aceitar a tecnologia como ela está e operá-la não será suficiente para chegarmos a uma soberania digital”, afirmou Kizzy.


Para Paz, soberania digital também significa a capacidade de um país decidir seu próprio caminho.“Quando falamos sobre ciência e soberania digital, um senso comum é pensarmos na construção de tecnologias de ponta, como satélites, uma IA nacional ou energia nuclear. Mas outro ponto é termos controle sobre nossa própria narrativa e capacidade de escolher o que, como e por que vamos usar uma determinada tecnologia”, disse. “Temos a capacidade, mas precisamos nos articular como sociedade para manter um plano de longo prazo. É importante que o foco seja nas pessoas. Podemos investir num supercomputador, mas a pessoa capaz de operá-lo pode ser contratada num sistema precário e ter condições ideais em outro lugar”, completou.
Durante a apresentação, eles também falaram sobre o canal que criaram no YouTube para ampliar o acesso à educação de qualidade e desenvolver o pensamento crítico. Tivemos essa consciência muito cedo, de que tínhamos acesso a instituições de excelência, mas essa não é a realidade para todos os brasileiros. O mercado de tecnologia, ainda que esteja passando por transformações devido às IAs, continua sendo uma possibilidade de mobilidade social”, apontou Kizzy.
ESR e RUTE: 20 anos de inovação
O último dia do Fórum RNP 2026 marcou ainda a celebração dos 20 anos da Rede Universitária de Telemedicina (RUTE) e da Escola Superior de Redes (ESR), iniciativas da RNP que contribuem para transformar a colaboração, a capacitação e a inovação no país.

O público acompanhou um vídeo que destacou a trajetória da RUTE na integração de instituições de saúde por meio da telemedicina, da teleassistência e da educação permanente ao longo dessas duas décadas.
A sessão também destacou o papel da ESR na formação de profissionais em redes, segurança cibernética e infraestrutura digital. “A ESR é uma área da RNP irmã da RUTE. Então é muito bacana ver duas iniciativas muito importantes para o ensino e pesquisa do Brasil nascerem muito próximas”, afirmou Leandro Guimarães, diretor-adjunto da ESR.

