Educação e proteção no ambiente digital também estiveram entre os destaques da programação
“Máquinas pensam ou não pensam? Isso é irrelevante. O relevante é que as máquinas escrevem 95% de todo o código que escrevemos melhor do que a gente”. A provocação foi feita por Silvio Meira durante apresentação que encerrou o segundo dia do Fórum RNP 2026. Um dos keynote speakers do evento, o cientista e especialista em inovação propôs uma nova forma de pensar a inteligência artificial a partir da relação entre inteligências individuais, sociais e artificiais.
Para Meira, mais importante do que discutir se máquinas pensam é observar como a tecnologia já muda o mercado de trabalho. “Cerca de metade dos profissionais que estão entrando no mercado tem um problema de partida, porque quem passava o código para eles escreverem descobriu que dá mais trabalho pedir a um humano do que a uma máquina. E toda vez que alguma coisa dá mais trabalho, a humanidade terá menos trabalho”.

Ele também questionou o próprio conceito de “inteligência artificial”. “IA não queria dizer inteligência artificial, porque não é. IA é imitação algorítmica em quase toda sua totalidade da capacidade cognitiva e repetitiva de seres humanos. Não é uma coisa que pensa, sente, sofre, tem anseios ou sente angústia. A imitação algorítmica é boa o bastante para reorganizar a divisão social do trabalho cognitivo”, explicou.
A discussão sobre inteligência artificial também esteve presente em outras apresentações ao longo do dia. Um debate sobre regulação da tecnologia levou ao Fórum diferentes perspectivas sobre os caminhos para o Brasil criar regras para a IA. Moderado por Lucas Baltasar Morimoto da Silva, head de Projetos e Parcerias do Instituto Brasileiro de Inovação e Regulação Aplicada (Ibira), o painel contou com Luis Fernando Prado, membro do Conselho Consultivo e líder do Comitê de IA Responsável da Abria; e Luiz Fernando Marrey Moncau, gerente de Políticas Públicas e relações governamentais do Google Brasil. Moncau defendeu uma regulação equilibrada, que evite intervenções exageradas e aumento de custos.
“A IA é muito importante para não ser regulada e também muito importante para não ser bem regulada. Estamos o tempo todo tentando fazer a calibragem entre oportunidades que a IA traz e a mitigação de riscos de uma nova tecnologia. A regulação deve ser baseada em riscos e corrigir os efeitos concretos que a IA traz na vida real. Devemos focar mais no resultado da IA, e não em como a IA é alimentada e treinada”, afirmou.
IA na educação e proteção no ambiente digital
O Fórum RNP trouxe para a pauta o novo Referencial do Ministério da Educação (MEC) para o desenvolvimento e uso responsável da IA na educação. A proposta orienta a adoção ética, segura e inovadora da tecnologia, com diretrizes sobre governança, proteção de dados, formação docente e competências digitais. Iara Christina Silva Barroca, professora associada da Universidade Federal de Viçosa; Tanci Simões, gerente de Estratégia Pedagógica na Arco; e Thaís Sanches Cardoso, especialista em Educação Digital e Midiática do MEC debateram o tema.

“Quando falamos de IA na educação básica, estamos falando de um ensino sobre a inteligência artificial e um ensino com a inteligência artificial”, explicou Thaís. “Hoje as redes de ensino usam a tecnologia na aprendizagem, seja com tutores inteligentes, com o professor preparando seus planos de aula ou na gestão, com o mapeamento de trajetórias e a identificação de potenciais evasões escolares. São inúmeras as possibilidades, mas tudo começa com o currículo. A IA precisa ser incorporada aos currículos das redes de ensino. Todo uso de IA deve ser acompanhado de ensino sobre a IA”, completou.
Foram ainda discutidos os impactos do ECA Digital na transformação digital das instituições de ensino. Participaram Ediane de Assis Bastos, coordenadora-geral de Segurança no Ambiente Digital do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP); Miriam Wimmer, diretora da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD); Ramon Gustavo Teodoro Marques da Silva, diretor de TI do IFSULDEMINAS; e Renata Mielli, assessora especial da ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação e coordenadora do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br). O painel abordou o desafio de conciliar tecnologias educacionais e proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital.

“O ECA Digital é uma legislação muito madura. Especialistas e autoridades internacionais reconhecem que é um dos marcos normativos mais avançados do mundo na proteção de crianças e adolescentes. O ECA trabalha com várias diretrizes e, diante dos problemas enfrentados no ambiente digital, é preciso considerar a dimensão e a abrangência dos riscos. A proporcionalidade ao risco norteia toda a condução do Estatuto”, ressaltou Ediane.
