Liane Tarouco

Depoimento de Liane Tarouco

Liane Tarouco"Em 1992, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) foi a primeira instituição a ter uma máquina capaz de gerenciar redes no Brasil. O equipamento veio no mesmo lote das estações de trabalho encomendadas para a Eco-92, que viabilizaram a primeira conexão de internet do país entre Rio e São Paulo.

Talvez a Penta seja a estação de trabalho mais antiga em funcionamento no país. Ela foi importante porque possibilitou a implantação de serviços inovadores e inaugurou para nós uma nova maneira de trabalhar com redes. Até então, quando a rede parava, não tínhamos elementos para diagnosticar o problema. Com a plataforma de gerência de redes instalada na Penta, podíamos consultar a situação de todas as máquinas e assim fazer um diagnóstico remoto. Além disso, ela também nos permitiu explorar novos serviços, como o Gopher (mecanismo de busca com indexação, precursor do que hoje é o Google) e o servidor web, até então nunca usados. As primeiras páginas web da UFRGS encontradas na Penta datam de 1994 e eram escritas manualmente, em HTML.

Na mesma época, a UFRGS também foi a primeira universidade a receber o supercomputador CRAY, o primeiro instalado abaixo da linha do Equador. Com capacidade de 300 megaflops, o supercomputador tinha memória e processamento vetoriais e uma estrutura matricial que permitia cálculos paralelos. O projeto implantou um backbone de fibra óptica que interligava seis redes locais espalhadas pelos campi da UFRGS e, na época, isso era bem avançado. Usávamos um software de gerência de redes chamado Sun Net Manager, da Sun Microsystems, que se popularizou porque tinha uma versão grátis. A Penta também tinha um servidor de e-mail, quando foi criado o domínio penta.ufrgs.br, que existe até hoje, embora o serviço esteja hospedado em outra máquina.

Pouco tempo depois, teve início o Grupo de Trabalho de Formação em Recursos Humanos (GT-RH) do Comitê Gestor da Internet (CGI.Br) e começamos o trabalho de formação de administradores de redes para toda a internet, em especial para a RNP. Eu e Leandro (Bertholdo, coordenador técnico do PoP-RS) fazíamos os cursos, gravávamos as aulas e disponibilizávamos na Penta. Ou seja, ela também apoiou as primeiras experiências de educação a distância com vídeo.

Penta UFRGSCom a Penta e o CRAY, chegaram outras duas estações de maior performance para tratar a visualização dos gráficos gerados pelo supercomputador. Isso teve grande impacto para a comunidade científica. Para os astrônomos, por exemplo, os dados gerados por telescópios eram processados no CRAY e depois visualizados em outras máquinas. Os engenheiros civis tinham um projeto de cálculo de estruturas utilizando o método de elementos finitos. São programas enormes, que geram matrizes e cálculos complicadíssimos. A Física, o Instituto de Pesquisas Hidráulicas e o Centro de Ecologia eram os grandes grupos de usuários dentro da UFRGS.

Por causa do supercomputador, a conexão entre Porto Alegre e São Paulo foi ampliada para 64 Kb/s, primeira linha com essa velocidade fora do eixo Rio-São Paulo. Como muitos pesquisadores queriam usá-lo, a RNP viabilizou o acesso a esses serviços a toda a comunidade nacional na época. Eu fui chamada para ajudar na equipe porque eu tinha conhecimento de redes e o supercomputador sem redes não servia de nada. A Penta ajudava a fazer a gestão da rede de acesso ao CRAY. Se um usuário perdia o acesso ao supercomputador, pela Penta investigava-se os roteadores pelo caminho para ver o que estava falhando.

Desde 1989, a UFRGS tinha acesso à internet pela conexão com a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), mesmo antes da RNP. Podíamos baixar softwares pela rede. Eu participava de grupos, por meio de serviços BBS (Bulletin Board System), um sistema por onde se postava contribuições, formavam-se grupos, dos temas mais diversificados que você possa imaginar. Um deles, a BRASNET, era a comunidade dos brasileiros que estavam no exterior. Havia listas de e-mail e era também uma forma de participar de uma espécie de rede social. Antes disso, para um pesquisador se manter atualizado, era preciso esperar mais de um ano entre um artigo ser submetido e o periódico chegar até a biblioteca".

Liane Margarida Rockenbach Tarouco é professora, pesquisadora e orientadora do Programa de Pós-Graduação de Ciência da Computação da UFRGS. Também é coordenadora administrativa do Ponto de Presença da RNP no Rio Grande do Sul e autora do primeiro livro de redes de computadores do Brasil, publicado em 1977.

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