Bruno Lowczy, 31 anos, cresceu em Campo Limpo, na zona sul de São Paulo, e começou a carreira como eletricista instalador formado pelo SENAI. Hoje, o engenheiro da computação e aluno do Hackers do Bem assina um dos registros mais importantes da cibersegurança mundial: o CVE-2026-15102, vulnerabilidade de alto impacto identificada no ADP Desktop SDK, software da Autodesk, uma das maiores empresas de tecnologia do planeta.
O feito, publicado no repositório oficial de vulnerabilidades em outubro de 2026, colocou o nome do estudante nos créditos oficiais da advisory de segurança da companhia.
A descoberta de Bruno é um alerta sobre como as empresas tratam a “identidade digital” dos seus usuários. O SDK da Autodesk transmitia informações sensíveis, entre elas o token de autorização JWT, espécie de carteira de identidade digital na nuvem. Com acesso à máquina de uma vítima, um atacante poderia interceptar esse token e se passar pelo usuário legítimo, obtendo acesso não autorizado aos serviços da empresa. No pior cenário, estariam em jogo projetos de engenharia de organizações que constroem as infraestruturas críticas mais importantes do mundo, como usinas, subestações e indústrias.
Mas o caminho até o reconhecimento não foi linear. Bruno encontrou a falha enquanto desenvolvia seu próprio sistema de autenticação e testava a mesma técnica em outras grandes empresas de tecnologia, como Google e Microsoft, antes de chegar à Autodesk.
Foi na Autodesk que a descoberta encontrou terreno fértil: ao enviar o reporte pela HackerOne, — plataforma internacional usada pela empresa para receber relatos de vulnerabilidades — a resposta inicial foi desanimadora. O primeiro analista classificou o caso como “fora do escopo” e “sem impacto”. “Fiquei bem tenso, pensei: será que eu achei alguma coisa, ou será que eu não achei?”, lembra Bruno. Mas a pulga atrás da orelha falou mais alto — e ele decidiu não desistir.
A virada veio quando Bruno levou o caso diretamente à engenharia de segurança da Autodesk, munido de evidências coletadas com o Wireshark, ferramenta de análise de rede: o token capturado sem criptografia, bit por bit, em hexadecimal, com todas as suas permissões na nuvem. A diferença? A triagem da HackerOne tinha olhado apenas para o código; Bruno apresentou o impacto de negócio — o cenário de roubo de propriedade intelectual em escala global.
A narrativa mudou o jogo. Em cerca de um dia, a empresa assumiu a responsabilidade pelo reporte. Uma semana depois, confirmou o problema e iniciou a correção. O que se seguiram foram sete meses de trabalho em uma reestruturação arquitetônica completa: o token, que antes viajava sem proteção, deu lugar a um fluxo seguro de sinais e metadados anônimos.
Quando a confirmação oficial chegou, veio na forma que ele mais esperava. Após meses de trabalho na correção, a Autodesk anunciou que o problema havia sido corrigido e perguntou como o nome do estudante deveria ser registrado. Publicado oficialmente, o CVE-2026-15102 deixou de ser apenas um número: veio acompanhado da advisory ADSK-SA-2026-0017, que credita nominalmente “Bruno Lowczy (@blowczy)”. “É tipo uma medalha de ouro nas Olimpíadas da Cyber”, compara. E a medalha tem impacto concreto: a correção protegeu usuários da plataforma em todo o mundo.
Por trás do reconhecimento internacional está uma história que começa em sala de aula e, para Bruno, isso vale tanto quanto o CVE. Ele ainda era estudante de engenharia da computação quando conheceu o Hackers do Bem. Foi a sua porta de entrada para o universo da segurança digital.
Na trilha de formação, concluiu os cursos assíncronos — e foi lá que ouviu falar pela primeira vez de zero trust, escalonamento de privilégios e dos mecanismos da nuvem, além de enfrentar um Capture The Flag (CTF) que, segundo ele, deu o toque prático decisivo à sua base técnica. “Depois disso, eu já conseguia falar com outros especialistas de igual para igual”, afirma.
A trajetória ainda guarda uma simetria simbólica: a carreira de Bruno começou no SENAI, com o curso de aprendizagem industrial. E é justamente em parceria com o SENAI que o Hackers do Bem forma os próximos capítulos dessa história, como ele mesmo ressalta. “Mudou toda a minha carreira. Ou melhor, ainda está mudando.”
Para Bruno, a conquista carrega um significado que vai além do currículo: a escolha pelo caminho ético. “Siga o lado do bem de verdade”, aconselha aos que estão começando. “Depois que você está nesse mundo, é muito fácil desviar o caminho, mas compensa seguir as recomendações da divulgação responsável.”
O estudante faz questão de lembrar que a decisão de reportar a falha em vez de explorá-la teve impacto real: “Vale muito mais escolher o lado ético. Eu consegui salvar milhares, talvez milhões de estações de trabalho.” Aos jovens que sonham em seguir pelo mesmo caminho, deixa uma mensagem de humildade e constância: “Quanto mais eu aprendo, menos eu sei, parece. Então quero continuar nessa jornada.” Uma jornada que começou em Campo Limpo, passou pelo SENAI, ganhou as salas de aula do Hackers do Bem — e agora escreve um capítulo brasileiro na história da cibersegurança mundial.