Lise Fuhr, CEO da GÉANT: ‘A governança precisa ser construída com base na escuta’

agosto 6, 2026
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Foto: GÉANT/Divulgação

Para Lise Fuhr, CEO da GÉANT, a rede pan-europeia para pesquisa e educação, a Europa precisa avançar na construção de sua soberania digital sem enfraquecer a cooperação científica internacional. Em entrevista à RNP em Revista, ela destaca que as redes acadêmicas e de pesquisa são ativos estratégicos para impulsionar a ciência e a inovação. Na avaliação da executiva dinamarquesa, o principal valor da GÉANT vai além da infraestrutura tecnológica e está na capacidade de mobilizar uma sólida comunidade colaborativa. Fuhr também discute os desafios da governança da internet e o fortalecimento de parcerias com organismos internacionais, além das perspectivas para a sustentabilidade financeira das infraestruturas digitais de pesquisa e educação.

Lise estará presente no Fórum RNP 2026, participando do painel: “Soberania Digital em um Mundo Interdependente: O Novo Papel das NRENs Globais”, no dia 25 de agosto.

RNP: Do seu ponto de vista, como você descreveria o estado atual das redes de pesquisa e educação no mundo? Quais são os maiores riscos estratégicos enfrentados hoje por essas redes, sejam eles tecnológicos, políticos ou financeiros?

Lise Fuhr: Neste momento, temos excelentes redes de pesquisa e educação, possivelmente o segredo mais bem guardado da Europa e do mundo. O que fazemos é único: fornecemos uma infraestrutura de alta qualidade e resiliente que atende à comunidade de pesquisa e educação.

Mas, se descansarmos sobre os sucessos que já alcançamos, corremos o risco de ficar para trás em relação ao ritmo de desenvolvimento tecnológico. Os atores comerciais estão avançando rapidamente em áreas como comunicações quânticas, inteligência artificial e sensoriamento por cabos submarinos, e essas são transformações tecnológicas que nossa comunidade também precisa explorar.

Ao mesmo tempo, o cenário político global está se tornando mais fragmentado e marcado por uma crescente desconfiança. Enquanto as redes de pesquisa e educação continuam promovendo confiança e coesão, o mundo em geral parece caminhar na direção oposta, com maior foco em defesa e menor atenção à educação e à pesquisa.

Do ponto de vista financeiro, nossa comunidade enfrenta pressão porque disputa recursos em um momento em que os financiadores estão, como costumamos dizer na Europa, em um contexto de “policrise”. Essa situação começou com a pandemia, foi agravada pela guerra na Ucrânia, pela crise energética e pelo avanço da inflação associado à crise envolvendo o Irã. Esses são desafios reais, mas eu também os vejo como oportunidades. Eles nos obrigam a enxergar com clareza quem somos e a defender o valor da nossa comunidade e de nossa infraestrutura, demonstrando que somos mais relevantes do que nunca.

RNP: Muitos países discutem atualmente conceitos como soberania digital e autonomia estratégica. Como as redes de pesquisa e educação podem equilibrar essas prioridades nacionais com a tradição da colaboração científica global?

Lise Fuhr: Essa é uma questão fundamental para o nosso futuro. Prosperamos graças a uma forte colaboração global, mas não podemos ignorar as crescentes demandas por soberania digital e autonomia estratégica. Essas duas dimensões podem coexistir, desde que exista equilíbrio.

Na Europa, por exemplo, há um movimento para que os equipamentos utilizados sejam produzidos no continente. Nesse aspecto, é possível atender às prioridades nacionais e às demandas por soberania. Essa direção foi incorporada à nossa Estratégia 2026-2030, que prevê o desenvolvimento da nossa rede como uma capacidade pan-europeia segura, resiliente e soberana, apoiada por escolhas tecnológicas bem fundamentadas e por parcerias estratégicas. Isso também significa trabalhar com nossos membros para avaliar e, quando apropriado, adotar alternativas digitalmente soberanas aos serviços existentes.

Para a pesquisa e a educação, entretanto, continuar conectando todos continua sendo a prioridade máxima. Se não conseguirmos fazer isso, o mundo estará em uma situação pior. O trabalho que realizamos é apolítico e deve permanecer assim, mas o controle sobre nossas próprias redes precisa permanecer dentro das fronteiras nacionais.

RNP: A Europa construiu um dos ecossistemas de redes de pesquisa mais avançados do mundo por meio da GÉANT e das redes nacionais de pesquisa e educação. Quais lições da experiência europeia podem ser úteis para outras regiões?

Lise Fuhr: Um dos maiores êxitos da GÉANT foi construir uma rede baseada na confiança e uma comunidade em torno dela. A tecnologia é uma das camadas fundamentais do nosso trabalho, mas aquilo que realmente torna a GÉANT forte são seus membros e a confiança construída ao longo dos anos por meio da colaboração. Criar infraestrutura física e digital exige também criar uma rede humana paralela, composta por pessoas que continuam aprendendo, evoluindo e compartilhando boas práticas.

Nossa força está exatamente nessa rede humana. Empresas comerciais também podem construir infraestrutura, mas é essa comunidade de pessoas que nos torna mais fortes.

RNP: A GÉANT opera com um modelo altamente colaborativo envolvendo dezenas de redes nacionais. Quais lições de liderança e governança surgiram da gestão de uma organização internacional tão distribuída?

Lise Fuhr: Quando cheguei à GÉANT, fiquei imediatamente impressionada com a força da comunidade das NRENs. Um ano e meio depois, essa percepção é ainda mais forte. Uma parte importante do que faz tudo funcionar é o respeito à diversidade, a comunicação eficaz e a inclusão genuína, combinados com a abordagem “bottom-up” da GÉANT, na qual a própria comunidade contribui ativamente para orientar a Associação. É isso que mantém a organização dinâmica e unida. A governança de uma organização distribuída como a nossa precisa ser construída sobre a escuta.

A GÉANT e suas NRENs associadas mantêm uma relação próxima e interdependente, e precisamos permanecer constantemente atentos uns aos outros. Ter uma direção clara e uma visão definida é essencial, mas se você ficar excessivamente preso à sua própria visão, não conseguirá atingir seus objetivos. Como diz o provérbio: “Se você quer ir rápido, vá sozinho. Se quer ir longe, vá acompanhado.” Esse é um princípio em que realmente acredito e que, na minha opinião, define a forma como a GÉANT exerce sua liderança.

RNP: A sustentabilidade financeira é um desafio permanente para grandes infraestruturas digitais. Como você vê o futuro da sustentabilidade financeira das redes de pesquisa e educação na Europa? Que mensagem gostaria de transmitir aos formuladores de políticas públicas sobre a importância desses investimentos?

Lise Fuhr: A sustentabilidade financeira começa pela compreensão das necessidades em constante evolução da comunidade de pesquisa e educação, e não apenas dos 27 países-membros da União Europeia. Ao permanecermos próximos dessas necessidades, podemos apoiar muitas das prioridades estratégicas da Europa e contribuir para os objetivos da Comissão Europeia em áreas como inteligência artificial, serviços de tempo e frequência, sensoriamento por cabos, testes e inovação, educação, segurança e gestão de identidade digital, incluindo iniciativas como a Carteira Europeia de Identidade Digital (EUDI Wallet). Já estamos em diálogo ativo com a Comissão Europeia sobre todos esses temas.

Minha mensagem aos formuladores de políticas públicas é simples: por sermos uma comunidade única, investir na GÉANT multiplica o impacto desse investimento, porque nossos próprios membros também contribuem para todo esse trabalho. Se conseguirmos tornar nosso valor mais claro e mais visível, acredito que teremos um caminho sólido para garantir financiamento e sustentabilidade financeira de longo prazo.

RNP: Tecnologias emergentes, como inteligência artificial, redes quânticas, grandes infraestruturas científicas de dados e serviços avançados de nuvem, estão impondo novas demandas às redes. Como as redes de pesquisa e educação devem adaptar sua infraestrutura e seus serviços para atender a essas exigências?

Lise Fuhr: Nossa comunidade já está se adaptando. Estamos investindo em áreas como serviços de tempo e frequência e ampliando modelos federados, como os utilizados no projeto EuroHPC Hyperconnectivity. Não precisamos ser pioneiros absolutos em todas as frentes, especialmente em áreas como a internet quântica. Em vez disso, podemos acompanhar atentamente os desenvolvimentos globais e oferecer nossa infraestrutura como ambiente de testes na Europa. Construir alianças estratégicas com organizações e empresas que atuam nesses campos emergentes é essencial, porque isso nos mantém conectados à pesquisa e à colaboração em andamento.

Adotamos a mesma abordagem para outras tecnologias emergentes, da inteligência artificial aos serviços avançados de nuvem. Em todas essas áreas, a construção de alianças estratégicas é fundamental. Elas nos mantêm integrados aos ecossistemas de inovação, em vez de tentarmos fazer tudo sozinhos.

RNP: A colaboração entre redes acadêmicas e provedores globais de nuvem vem aumentando. Como você enxerga a evolução da relação entre infraestruturas públicas de pesquisa e plataformas digitais comerciais?

Lise Fuhr: Essa colaboração está se expandindo, mas precisamos compreender cuidadosamente suas implicações para nossas redes. Vejo uma dependência crescente das plataformas digitais comerciais por parte das instituições acadêmicas, impulsionada principalmente pelas necessidades relacionadas à computação em nuvem.

Na Europa, existe uma demanda crescente por soluções europeias, motivo pelo qual o sucesso do programa OCRE 2024 é tão importante. Ele permite que as instituições adquiram, de forma simplificada, tanto soluções europeias quanto serviços oferecidos pelos grandes provedores globais de nuvem, todos disponibilizados por fornecedores europeus nos Estados-membros. A GÉANT não está apenas reagindo a essa transformação; estamos desenvolvendo ferramentas para administrá-la estrategicamente. Ainda existem desafios importantes, já que muitas ofertas de serviços europeias continuam atrás dos hyperscalers em termos de escala e maturidade. No futuro, queremos desempenhar um papel cada vez mais ativo ao lado de nossos membros e da comunidade global para navegar por essas mudanças, guiados pelos princípios da resiliência, eficiência de custos e soberania digital.

RNP: Olhando para a próxima década, o que as redes de pesquisa e educação precisam fazer para continuar sendo infraestruturas essenciais para a ciência, a educação e a inovação?

Lise Fuhr: Precisamos continuar ouvindo as necessidades da comunidade de pesquisa e educação e permanecer atentos às transformações políticas, preservando ao mesmo tempo uma forte colaboração global e o intercâmbio de boas práticas. Devemos cuidar do nosso próprio ambiente sem perder de vista o panorama mais amplo. Não podemos nos fechar em contextos locais, por mais importantes que eles sejam para a geração de valor para nossos membros.

O que nos torna únicos são exatamente os nossos membros: a capacidade de conectar a Irlanda à Ucrânia e a Finlândia à Grécia por meio de uma rede que oferece altos níveis de capacidade, qualidade e segurança, algo que simplesmente não pode ser reproduzido da mesma forma por uma rede comercial. Colaboração sólida, foco tecnológico e uma comunidade unida: são esses os elementos que nos manterão essenciais.

Também precisamos fortalecer nossa colaboração com organizações técnicas e políticas que moldam a internet globalmente, como o Fórum de Governança da Internet (IGF), a ICANN, a IETF e a Internet Society (ISOC). Manter uma participação próxima dessas organizações aumenta nossa visibilidade, fortalece nossa voz nos processos de desenvolvimento tecnológico e nos proporciona uma visão mais clara do que está acontecendo em toda a comunidade global da internet.