Jie An, CEO da CERNET: ‘A prioridade é oferecer conectividade de alto desempenho’

agosto 6, 2026
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Com mais de três décadas de atuação, a China Education and Research Network (CERNET) tornou-se uma das maiores e mais avançadas redes acadêmicas do mundo, conectando mais de três mil universidades e instituições de pesquisa. Nesta entrevista à RNP em Revista, Jie An, CEO da CERNET, com sede na Universidade Tsinghua, destaca como o apoio do governo chinês impulsionou essa trajetória, apresenta as prioridades da rede em inteligência artificial, computação avançada e IPv6 e defende a cooperação internacional como base para o avanço da ciência.

Jie An estará presente no Fórum RNP 2026, participando do painel: “Soberania Digital em um Mundo Interdependente: O Novo Papel das NRENs Globais”, no dia 25 de agosto.

RNP: A China tem fornecido forte apoio político ao desenvolvimento de sua infraestrutura digital nacional e de tecnologias avançadas. Como essa estratégia nacional influencia o desenvolvimento e as prioridades das redes de pesquisa e educação no país?

Jie An: Apoio político consistente e investimentos contínuos têm sido fundamentais para o desenvolvimento de longo prazo da CERNET. Cada geração da infraestrutura troncal da rede foi construída e modernizada por meio de grandes iniciativas financiadas pelo governo. A primeira geração da CERNET entrou em operação em 1994. Atualmente, conecta mais de 3.000 universidades e instituições de pesquisa, atendendo mais de 50 milhões de usuários em todo o país.

Em 2004, a CERNET implantou a CERNET2, uma rede troncal nacional baseada exclusivamente em IPv6, conectando quase 2.000 universidades. Em 2021, a CERNET concluiu a Future Internet Technology Infrastructure (FITI), também conhecida como CERNET3. Interligando 31 nós centrais por meio de enlaces de 200 Gbps, a FITI funciona como uma plataforma aberta de experimentação para pesquisa, testes e inovação em arquiteturas de internet do futuro e tecnologias avançadas de redes.

RNP: A CERNET tem sido um dos pilares da infraestrutura acadêmica de internet da China por décadas. Como você descreveria seu estágio atual de evolução e quais são suas principais prioridades estratégicas hoje? A ciência intensiva em dados, a inteligência artificial e as grandes infraestruturas de pesquisa estão impondo novas demandas às redes. Como a CERNET está se preparando para apoiar esses campos científicos e tecnológicos emergentes?

Jie An: Eu diria que a evolução da CERNET tem sido um sucesso notável, consolidando-a como um dos pilares da infraestrutura digital da China para educação e pesquisa.

À medida que avanços em inteligência artificial, computação quântica e outras tecnologias emergentes ampliam rapidamente as capacidades humanas e transformam a educação e a pesquisa científica, a principal prioridade da CERNET é fortalecer ainda mais sua infraestrutura de rede, oferecendo a conectividade de alto desempenho necessária para educação, pesquisa e computação impulsionadas por novas tecnologias.

Em 2023, a CERNET lançou uma rede troncal experimental ultrarrápida de 1,2 Tbps conectando Pequim, Wuhan e Guangzhou, tornando-se a primeira infraestrutura de internet do mundo a operar nessa capacidade. Ela funciona como um ambiente de testes dedicado à transmissão de grandes volumes de dados científicos e à validação de tecnologias de rede de próxima geração.

Em segundo lugar, a CERNET está trabalhando para integrar recursos computacionais distribuídos por toda a China, tornando capacidades avançadas de processamento mais acessíveis às universidades e reduzindo as barreiras de acesso à computação de alto desempenho e aos recursos de inteligência artificial. Em terceiro lugar, a CERNET está explorando a aplicação da inteligência artificial às operações, manutenção e segurança das redes, com o objetivo de construir infraestruturas mais inteligentes, autônomas e resilientes.

RNP: A China liderou iniciativas de grande escala, como a adoção nacional do IPv6 e a implantação de redes troncais de nova geração. Que lições da experiência da CERNET podem ser relevantes para outras redes nacionais de pesquisa e educação?

Jie An: A CERNET construiu um caminho prático para a transição para o IPv6 ao operar, em paralelo, duas grandes redes de produção: a CERNET, baseada em IPv4, e a CERNET2, uma rede troncal nativa em IPv6.Ao longo desse processo, a CERNET contribuiu ativamente para os esforços de padronização da Internet Engineering Task Force (IETF) relacionados às tecnologias de transição entre IPv4 e IPv6, resultando na publicação do mecanismo IVI (tradução IPv4/IPv6) em uma série de RFCs da IETF.

À medida que países e regiões de todo o mundo enfrentam o esgotamento dos endereços IPv4 e avançam em suas agendas de transformação digital, esperamos que a experiência da CERNET possa contribuir para o intercâmbio global de conhecimento e boas práticas na implementação do IPv6.

RNP: A cooperação internacional sempre esteve no centro da comunidade de redes de pesquisa e educação. Como você vê o futuro da colaboração entre a CERNET e outras redes globais, como a GÉANT, a Internet2 e as redes de regiões em desenvolvimento?

Jie An: Ao longo de sua trajetória, a colaboração internacional sempre foi um dos pilares da missão da CERNET. A CERNET tem promovido continuamente a conectividade e a cooperação com redes nacionais de pesquisa e educação (NRENs) da região Ásia-Pacífico, da Europa, da América do Norte e de outras partes do mundo.

Desde 2000, a CERNET participa ativamente da Internet Engineering Task Force (IETF), contribuindo para o desenvolvimento de padrões abertos para a internet por meio de tecnologias como a SAVA (Source Address Validation Architecture) e o IVI, criadas para responder a desafios técnicos encontrados durante a evolução de suas redes. Essas iniciativas também contribuíram para o avanço da comunidade global de redes.

À medida que o mundo entra em uma nova era de transformação tecnológica, a CERNET espera aprofundar sua colaboração com as NRENs de todo o mundo para construir um ecossistema global de redes acadêmicas mais conectado, resiliente e confiável. Juntos, podemos garantir que a internet continue impulsionando a ciência, a educação e a inovação em benefício das pessoas em todos os lugares.

RNP: À medida que a competição tecnológica entre as grandes potências se intensifica, qual papel as redes de pesquisa e educação podem desempenhar na manutenção dos canais de colaboração científica global?

Jie An: A competição global em ciência e tecnologia está se tornando cada vez mais intensa. No entanto, o progresso científico sempre foi impulsionado pela abertura, pela colaboração e pela livre troca de conhecimento. Seja na educação, na pesquisa básica, nas mudanças climáticas, na saúde pública ou em áreas emergentes como a inteligência artificial, a cooperação internacional continua sendo essencial para enfrentar muitos dos desafios mais urgentes da atualidade.

É nesse contexto que as NRENs desempenham um papel único e indispensável. Ao defender padrões abertos, garantir conectividade global sem barreiras e facilitar o compartilhamento de infraestrutura, dados e conhecimento científico, as NRENs fornecem uma base digital confiável e resiliente para a colaboração científica internacional. Trabalhando juntas, elas podem garantir que as redes avançadas continuem acelerando descobertas científicas, ampliando oportunidades educacionais e promovendo inovações que beneficiem pessoas em todo o mundo.

RNP: Na sua opinião, quais são os principais fatores de governança e financiamento que permitiram à CERNET crescer e se manter sustentável ao longo do tempo?

Jie An: Sob a liderança do Ministério da Educação da China, o Centro de Redes CERNET da Universidade Tsinghua coordena um consórcio nacional de pesquisa formado pelas principais universidades do país. Esse consórcio é responsável pelo planejamento, pela arquitetura e pelas atividades de pesquisa e desenvolvimento tecnológico das redes troncais CERNET, CERNET2 e CERNET3.

A CERNET Corporation atua como a entidade operacional comercial, fornecendo recursos de fibra óptica e sendo responsável pela operação, manutenção e prestação dos serviços da rede. Esse modelo de dupla estrutura, que combina pesquisa e inovação lideradas pelas universidades com uma empresa profissional dedicada à operação da rede, tem sido fundamental para o desenvolvimento contínuo da CERNET e para sua sustentabilidade de longo prazo.


RNP: Olhando para a próxima década, quais serão os desafios e oportunidades mais importantes para as redes nacionais de pesquisa e educação em todo o mundo?

Jie An: No mundo atual, marcado por mudanças aceleradas, espera-se que as redes nacionais de pesquisa e educação não apenas acompanhem sucessivas ondas de transformação tecnológica, mas também enfrentem um cenário de crescente incerteza geopolítica e de fragmentação do ambiente digital. Nesse contexto, seu papel na sustentação de um ecossistema global de pesquisa aberto, confiável e conectado nunca foi tão importante.

Ao promover abertura, interoperabilidade e colaboração internacional, as NRENs permitem que cientistas e pesquisadores de todo o mundo trabalhem juntos além das fronteiras nacionais, acelerem descobertas e inovações e enfrentem desafios que afetam toda a humanidade. Como diz um antigo provérbio chinês: “Onde há vontade, há um caminho.”

Acredito que, com um compromisso compartilhado com a abertura, a colaboração e a confiança mútua, a comunidade global das NRENs continuará superando desafios, aproveitando novas oportunidades e contribuindo para um futuro mais promissor para a ciência, a educação e a sociedade como um todo.