Foto: Divulgação/Victor Hoffmann
Keynote do evento analisa como inteligência artificial, infraestrutura e qualificação profissional precisam andar juntas para gerar resultados concretos
O avanço da inteligência artificial (IA) e a crescente digitalização da sociedade ampliaram o debate sobre a necessidade de reduzir a dependência tecnológica e fortalecer a capacidade do país de desenvolver soluções próprias. Nesse cenário, o conceito de soberania digital ganha cada vez mais relevância, envolvendo desde a proteção de dados estratégicos e a infraestrutura tecnológica até a formação de profissionais qualificados para criar, operar e aperfeiçoar tecnologias.
Para o especialista em tecnologia e inovação Arthur Igreja, um dos principais equívocos é associar a soberania digital exclusivamente à tecnologia. Segundo ele, investimentos em infraestrutura só produzem resultados efetivos quando acompanhados do desenvolvimento de talentos capazes de utilizar e aprimorar esses recursos.
“Quando falamos em soberania, a associação costuma ser imediata com infraestrutura e tecnologia. Mas você pode ter toda a tecnologia do mundo e, se não houver capital humano para desenvolvê-la, operá-la e transformá-la em valor, também não vai funcionar. Soberania também pressupõe pessoas capacitadas”, explica.
O tema estará entre os destaques da palestra de Igreja no Fórum RNP 2026, que será realizado de 24 a 27 de agosto, em Brasília, com transmissão online gratuita. Durante sua apresentação, ele abordará como a adoção da inteligência artificial nas organizações depende não apenas da tecnologia, mas também de uma mudança na forma de atuação dos profissionais. Em vez de executar todas as etapas de um processo, eles passam a supervisionar a tecnologia, avaliar resultados e garantir seu uso estratégico e alinhado aos objetivos institucionais.
“A IA assume essa camada de cognição, de raciocínio e até de entrega, mas é o ser humano que avalia se aquilo tem valor, se está correto, se é moral, ético e se deve ou não ser feito. O ser humano passa a ter outro papel. É como se fosse o conselho de administração da IA”, afirma.
Para o especialista, transformar o potencial da inteligência artificial em aplicações concretas e escaláveis ainda é um dos maiores desafios enfrentados pelas organizações.
“Vejo três grandes desafios. O primeiro é formar pessoas capazes de integrar a IA aos processos das organizações. O segundo é o custo, porque, apesar de ser muito acessível para começar a usar, implementar essa tecnologia em larga escala não é barato. E o terceiro é encontrar casos de sucesso que realmente entreguem retorno sobre o investimento”, destaca.
Além dos aspectos técnicos e financeiros, ele avalia que a adoção da IA exige uma nova abordagem para a inovação. O desenvolvimento de projetos deixou de ser responsabilidade exclusiva das áreas de tecnologia e passou a depender da colaboração entre especialistas de diferentes áreas. Ao mesmo tempo, questões como segurança, ética e soberania digital precisam ser consideradas desde as etapas iniciais.
“É preciso criar uma sinergia entre quem conhece os processos e quem tem o mínimo de conhecimento em tecnologia para enxergar essas oportunidades”, ressalta.
Como a inteligência artificial depende de grandes volumes de dados para entregar resultados consistentes, a disponibilidade de redes de alta capacidade e infraestrutura computacional robusta é um fator decisivo para ampliar seu potencial.
“A IA só faz sentido quando abastecida por dados. A infraestrutura determina as possibilidades. É como comparar a internet discada com a banda larga: as capacidades são completamente diferentes. Da mesma forma, redes de alta capacidade e computação avançada são pré-requisitos para rodar modelos de IA e implementar esse tipo de solução”, afirma.
Apesar dos avanços da inteligência artificial e da infraestrutura digital, Igreja reforça que a tecnologia, por si só, não garante inovação. O sucesso depende de uma adoção estratégica, orientada à resolução de problemas concretos e à geração de valor para as organizações.
“O principal erro é adotar tecnologia apenas porque ela está em evidência. Isso tem acontecido muito com a IA, justamente por despertar enorme interesse. É preciso ter discernimento para identificar onde ela realmente faz sentido e pode gerar resultados”, conclui.
