O uso de Inteligência Artificial (IA) para ampliar a previsão de eventos climáticos extremos foi um dos temas debatidos no segundo dia do Workshop RNP (WRNP). Durante apresentação no evento, o meteorologista Paulo Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mostrou como a tecnologia pode ampliar a capacidade de antecipar fenômenos e auxiliar governos e pesquisadores diante do avanço das mudanças climáticas.
“Em 2024, passamos cerca de 300 dias do ano com a temperatura média global acima de 1,5º C. Então já temos uma situação extrema. Nosso desafio para a IA é conseguir prever esses fenômenos com grande antecedência, como o Super El Niño. Para isso, precisamos de modelos climáticos que integrem informações atmosféricas, oceânicas e ambientais”, afirmou.
Nobre explicou que os modelos climáticos atuais combinam diferentes tipos de dados para ampliar a capacidade de previsão de eventos extremos. Ele também destacou iniciativas voltadas à ampliação da autonomia nacional na coleta de dados ambientais, incluindo um acordo entre Brasil e China para o desenvolvimento de um satélite meteorológico conjunto.
“Gerar vários cenários a partir de uma previsão, que computacionalmente é muito caro, com IA se torna centavos. Quando pensamos em ampliar essa capacidade, talvez não seja apenas uma questão de multiplicar a infraestrutura atual, mas de dar um salto tecnológico. Ter capacidade própria de observação por satélite também é uma necessidade estratégica diante do atual cenário global”, ressaltou o pesquisador do Inpe.
A IA também foi o ponto central em outras apresentações ao longo do dia. Representante da rede acadêmica europeia GÉANT, Daniela Brauner mostrou os impactos que a tecnologia tem trazido para as infraestruturas digitais e os serviços das redes avançadas de ensino e pesquisa na Europa. Ela lembrou que as redes acadêmicas vêm ampliando a oferta de serviços e deu exemplos de como a IA se tornou parte da rotina das comunidades acadêmicas.
“Os serviços de rede das redes acadêmicas estão se diversificando muito. Temos a conectividade como principal serviço, mas muitos outros fazem parte desse pacote, como armazenamento, computação, segurança e gestão de identidade. E nisso a IA começou a aparecer. Não dá mais para voltar atrás”, enfatizou.
Daniela apresentou dados do Google que apontam que cerca de 50% dos pesquisadores usam IA na revisão de artigos científicos. “O que precisamos para alavancar esse uso para educação e pesquisa? É confiança e facilidade de uso. E isso é o que as redes acadêmicas conseguem oferecer. Se olharmos o motivo de pesquisadores e professores não usarem, conseguimos pensar em alternativas que as redes acadêmicas poderiam ajudar. Podemos ajudar, por exemplo, em toda essa parte de acesso. E na questão de infraestrutura também”, destacou a representante da GÉANT.

Avanço da IA no Brasil
O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) também esteve em debate no WRNP. A iniciativa prevê investimentos de R$ 23 bilhões até 2028. Hugo Valadares, diretor do Departamento de Incentivos às Tecnologias Digitais do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), destacou a necessidade de o Brasil avançar no uso e no desenvolvimento de IA.
“Estamos vivendo uma realidade. Não cabe mais discutir se devemos absorver IA no Estado e em centros de pesquisa. A questão agora é como. Como fazermos isso de maneira acelerada, porque as coisas avançam numa velocidade enorme”.
Segundo Valadares, o plano foi construído com a participação de diferentes setores da academia, empresas e áreas estratégicas impactadas pela tecnologia. “Não podemos pensar apenas em pesquisa. Temos que passar para a próxima etapa, que é o produto, como gerar recursos, empregos e conhecimento para que o Brasil seja ponta de lança no uso de ferramentas de IA. Precisamos avançar em infraestrutura. Hoje, o país ainda não tem capacidade suficiente para competir com as big techs”, explicou.
Desafios quânticos
O avanço das tecnologias quânticas foi outro assunto discutido no segundo dia de evento. Valéria Loureiro, do Senai-Cimatec, abordou o desenvolvimento de tecnologias de comunicação quântica e os desafios para ampliar o uso dessas soluções voltadas à proteção de dados e comunicações digitais.
Já o professor Marcos Simplício, da Universidade de São Paulo (USP), falou dos desafios da chamada criptografia pós-quântica, detalhando os impactos que a computação quântica pode trazer aos sistemas atuais de segurança digital.
