No barco que cruza o rio Araguaia (PA), o equipamento de pesquisa divide espaço com mochilas infantis, redes e garrafas de água. Entre caixas de coleta e coletes salva-vidas, uma bebê de colo acompanha o trabalho de campo. Para a bióloga Cristiane Cunha, professora da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), essa não é uma cena excepcional. É uma rotina.
Pesquisadora na área de ecologia aquática e mãe de cinco filhos, ela transformou o que seria um dilema em um modelo improvisado de sobrevivência acadêmica no interior da Amazônia. Cristiane decidiu abrir caminhos para conciliar maternidade e carreira científica. “Eu não fiz uma separação entre trabalho e maternidade. Isso foi se misturando no cotidiano”, diz.
A escolha, no entanto, está longe de ser romântica.
Fazer pesquisa fora dos grandes centros já impõe desafios estruturais. No caso de Cristiane, isso significa viagens de mais de 50 quilômetros por estradas precárias, seguidas por deslocamentos de barco até comunidades ribeirinhas. As saídas de campo podem durar dias. Com filhos, a operação ganha outra dimensão.
Além dos equipamentos científicos, entram na conta alimentos extras, redes, roupas, medicamentos e uma logística paralela que não aparece em editais, relatórios ou métricas de produtividade. “Não é só ir para campo. Tem que planejar tudo: o que as crianças vão comer, onde vão dormir, o que pode ou não faltar”, afirma.
Ainda assim, ela leva os filhos. Todos passaram pela experiência, desde a mais velha, hoje universitária, à caçula, que começou a acompanhar a mãe aos dois meses de idade, e ainda no braço, continua como companheira inseparável da rotina de campo.

O descompasso estrutural entre maternidade e produtividade
No sistema acadêmico brasileiro, a régua é clara: publicar com frequência, orientar alunos, captar recursos. Mas o tempo da ciência não é o mesmo da maternidade. E essa diferença raramente é considerada.
“Tenho colegas que publicam mais de 20 artigos por ano. Eu não consigo. No ano passado, publiquei dois. Um deles já estava em andamento há muito tempo”, diz.
O dado, isolado, pode parecer apenas uma diferença de desempenho. Na prática, revela um descompasso estrutural: o modelo de avaliação científica ainda parte de um pesquisador padrão, disponível em tempo integral e, em geral, sem responsabilidades de cuidado. “Meu tempo é diferente. É um tempo de quem concilia maternidade com a vida na academia. Então, o tempo da escrita, da análise, tudo muda. As pausas são necessárias, porque eu preciso dar atenção a eles”, afirma.

Infraestrutura inexistente
Mesmo dentro da universidade, o ambiente não acompanha essa realidade. Um desafio que se repete em diversas universidades e centros de pesquisa do Brasil e que ela vivencia ao longo de anos.
Cristiane relata dificuldades básicas, como a ausência de fraldários ou espaços para acolher crianças no campus. Levar os filhos para o trabalho não é uma escolha ideológica. Para muitas mulheres, é a única alternativa.
“Maria Flor, que é a caçula, muitas vezes precisa vir comigo. Ela ainda mama e pai dela também trabalha e fica se deslocando entre os lugares. Os mais velhos também. Eles saem da escola e eu prefiro que venham para cá ao invés de ficarem pela rua ou em casa sozinhos. Às vezes, eu preciso pensar no que eles vão fazer enquanto eu trabalho. Não existe estrutura para isso”, diz.
A falta de suporte também se estende às atividades de campo. Em muitos casos, ela dirige sozinha por horas, cuida da logística da pesquisa e ainda precisa retornar com os filhos.
Cristiane sabe que não é sozinha e se considera com uma rede de apoio melhor que a de muitas mulheres que conhece. A base é a mãe, que nos deslocamentos mais curtos a acompanha para ajudar no cuidado com a filha pequena, e o companheiro, pai da caçula Maria Flor, que quando não está trabalhando também vai ao encontro de Cristiane no campo para cuidar do bebê, hoje com dois anos.
“Ele é pai. Cuida, dá banho, alimenta. Sem isso, não seria possível eu seguir”, afirma.
A diferença não é trivial. Em um ambiente em que o cuidado ainda recai majoritariamente sobre mulheres, a divisão mais equilibrada se torna um fator decisivo para a continuidade da carreira.
Ciência com impacto, e com filhos
Apesar dos obstáculos, Cristiane mantém uma linha de pesquisa conectada ao território: manejo de quelônios, monitoramento da pesca e trabalho direto com comunidades ribeirinhas. Esse vínculo que sustenta as escolhas que fez.
“Eu vejo que o meu trabalho tem impacto real. Ele contribui para as comunidades e para o ambiente. Isso me dá força para continuar”, diz.

Levar os filhos para o campo, nesse contexto, ganha outro significado. Junto com uma solução logística veio a vontade de inseri-los no processo, formar consciência do território em que vivem, incentivar o amor pelo conhecimento e pela pesquisa. “Quero que eles entendam que a ciência precisa ter retorno para a sociedade”, afirma.
O que a história revela sobre a ciência no Brasil
A trajetória de Cristiane expõe um conjunto de questões que vão além da experiência individual. Ela mora em Marabá, no Pará, uma região marcada por desafios de infraestrutura que ainda precisam ser vencidos por quem faz ciência, seja em laboratórios, seja no campo, evidenciando a desigualdade entre centros e periferias da produção científica. Mas também mostra a necessidade de políticas institucionais para mães pesquisadoras.
No Brasil, onde a expansão das universidades federais levou a pesquisa para regiões antes desconectadas da produção científica, histórias como essa se tornam cada vez mais comuns, mas persistem pouco visíveis.
Entre rios, prazos e filhos, fazer ciência fora do eixo continua sendo, antes de tudo, um exercício de resistência.
Programa Conecta
O Pará é um dos estados atendidos pelo Programa Conecta, iniciativa do Ministério da Ciência e Tecnologia, executada pela RNP que leva internet rápida, segura e confiável para universidades, hospitais e instituições públicas em todo o Brasil, inclusive em regiões que antes não tinham uma boa conexão.
Assista o vídeo e conheça mais sobre o Programa Conecta:
Apoio à mulher na ciência avança no Brasil e no exterior
Ainda temos um longo caminho pela frente, mas iniciativas voltadas à permanência e ao avanço de mulheres na carreira científica têm ganhado força nos últimos anos. Essas ações vêm para tentar reduzir as desigualdades de gênero e reconhecer como a maternidade influencia a trajetória acadêmica.

No Brasil, instituições como o CNPq e a CAPES passaram a prever prorrogação de bolsas e flexibilização de prazos para pesquisadoras que tiveram filhos, assegurando um direito às mulheres. Outras instituições como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) já consideram as interrupções por maternidade na avaliação de currículos. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) passou a lançar editais com recorte de gênero.
Outra frente relevante vem da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (colocar a sigla), que lançou o Programa de Apoio à Jovem Cientista Mulher Dra. Tatiana Sampaio – 2026. A iniciativa direciona recursos para pesquisadoras com até 12 anos de doutoramento vinculadas a instituições fluminenses. O edital amplia o tempo de doutorado para candidatas que tiveram filhos nos últimos cinco anos.
No Rio Grande do Sul, o trabalho do Parent in Science, também contribui para a inclusão da maternidade no currículo Lattes. O movimento debate critérios mais justos de avaliação científica, mantém monitoramentos e mais recentemente lançou o Guia de Estratégias para Combate à Discriminação e ao Assédio Contra Mães na Academia.
No cenário internacional, iniciativas seguem na mesma direção. A National Science Foundation mantém programas de equilíbrio entre carreira e vida familiar, enquanto a European Commission exige planos institucionais de igualdade de gênero para acesso a recursos de pesquisa. Já a L’Oréal Foundation apoia a liderança feminina por meio de bolsas e reconhecimento global.
Em comum, essas ações indicam uma mudança de abordagem: além da flexibilização de prazos, cresce a adoção de políticas estruturadas para garantir a permanência, a progressão e o protagonismo de mulheres na ciência.