Rede acadêmica promove encontro entre a tecnologia e a arte telemática

- 21/01/2016

Imagine um espetáculo de dança em que, em vez de dividir o mesmo palco, os bailarinos estão em cidades diferentes, ou até em outros continentes. O fuso-horário e a distância não impedem a interação entre eles, que acontece graças à mediação tecnológica. Essa é a missão da dança telemática, que aproxima bailarinos que não estão necessariamente em um mesmo espaço físico, e cria outras relações de experimentação com o corpo.

Em 2013, o espetáculo Dancing Beyond Time (2013), organizado pelas redes acadêmicas da Ásia e do Pacífico, a APAN, foi uma importante parceria que envolveu o Brasil e diversos países, ligando o Ocidente ao Oriente. Os dançarinos estavam distribuídos em Barcelona (Espanha), Salvador (Brasil) e na cidade de Daejeon, na Coreia do Sul, enquanto a música era executada ao vivo por instrumentistas em Praga, na República Tcheca. Os movimentos dos bailarinos eram capturados por Kinect e parte da trilha sonora era alterada conforme a coreografia.

O espetáculo tornou-se possível através de um consórcio mantido por redes acadêmicas para transmissão multimídia, o HPDMnet (High Performance Digital Media Network), que representou um desafio para a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), que opera a rede acadêmica brasileira, e foi executada com sucesso, apesar das grandes distâncias.

A dança telemática é um capítulo importante da história da RNP. Em 2005, o Grupo de Pesquisa Poéticas Tecnológicas, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que estuda a interação entre o corpo e os recursos tecnológicos, desenvolveu o espetáculo Versus, especialmente para a cerimônia de inauguração da rede acadêmica no Brasil, que na época havia alcançado 10 Gb/s.

A performance foi realizada em três cidades brasileiras separadas por mais de 2.000 km de distância: bailarinos da Escola de Dança da UFBA foram distribuídos em Salvador e Brasília, enquanto músicos compunham a trilha sonora em tempo real, em João Pessoa. A configuração permitia que um bailarino tivesse a referência espacial do próprio corpo em relação ao companheiro, situado em outro local, colocando em cheque noções de distância, relação espaço-tempo e de proximidade. 

“Todos os artistas envolvidos atuavam em tempo real, buscando uma interação através da rede, na qual o público podia assistir presencialmente em Brasília ou pela internet”, explica a coordenadora e fundadora do Grupo de Pesquisa Poéticas Tecnológicas, Ivani Santana. A pesquisadora considera a arte telemática, seu objeto de pesquisa desde 2001, um nicho cognitivo, que promove uma mediação e troca de informação, para testar outras formas de acesso ao outro.

As atuações em telemática foram ampliadas para o âmbito internacional com a entrada do Grupo de Trabalho em Mídias Digitais e Arte, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), para o Programa de Grupos de Trabalho da RNP, em 2009. O programa trabalha junto à comunidade científica em busca de aplicações inovadoras.

No final do ciclo do programa, o grupo de pesquisa teve como resultado o Arthron, ferramenta de suporte a eventos midiáticos distribuídos, capaz de transmitir dados audiovisuais em alta resolução e em tempo real. A plataforma foi utilizada no espetáculo e_Pormundos Afeto, em parceria com a companhia catalã Kònic Thtr. A primeira versão da performance foi realizada entre duas cidades brasileiras, Fortaleza e Natal, e também em Barcelona, na Espanha.

Segundo Ivani Santana, essas experiências deram início a um processo de transmissão de conhecimento para vários parceiros nacionais e internacionais, bem como o reconhecimento da rede acadêmica como um meio para experimentação em artes. “Essas iniciativas foram fundamentais para a difusão da arte em rede e um estímulo para que muitos artistas conhecessem e começassem a investigar e criar nesse campo”, afirmou a pesquisadora.

Nos últimos anos, o Grupo de Pesquisa Poéticas Tecnológicas dedicou-se a outros projetos: um deles internacional, o Personare, entre Brasil, Chile e Portugal; e o Gretas do Tempo, realizado em conjunto com o Balé Teatro Castro Alves, que explora os arredores da cidade de Salvador. Além disso, lançou em dezembro de 2015 uma revista especializada em dança e performance digital, a Mapa D2.

Foto: Dancing Beyond Time (2013).

Crédito: Revista Mapa D2.

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