Alexandre Grojsgold

Depoimento de Alexandre Grojsgold

Bitnet O Globo Grojsgold“A primeira conexão da RNP foi em 1992, que marcou o início da internet no Brasil. Foi um caminho árduo que nós traçamos. Certamente, não foi um feito tecnológico, pois, de certa forma, nós aproveitamos o que estava sendo desenvolvido lá fora, sobretudo nos Estados Unidos. Mas foi uma conquista na mudança da mentalidade vigente, pela adoção de tecnologias maduras em bases pragmáticas, ainda que violando certas normas e o modelo monopolista ainda em curso.

O que temos que lembrar, principalmente aos mais jovens, é que as tecnologias de redes já vinham de longa data. Quando me formei, trabalhava na Petrobras em 1975 e lá havia sistemas conectados, terminais e uma rede de computadores. Tudo isso acontecia. A característica dessas redes era o fato de serem fechadas.

Nesse meio tempo, saí da Petrobras, fui fazer um doutorado na França, e voltei em 1983. Nesse doutorado, eu nunca ouvi falar em e-mail. É difícil imaginar que, naquele tempo, para eu saber o que estava acontecendo no Brasil, ou eu telefonava ou esperava para ler o jornal de dois dias antes.

Em 1985, recebemos no Instituto de Matemática e Engenharia (IME) um professor da Universidade de Maryland, que fez uma palestra sobre colaboração entre cidades, e trouxe essa ideia de que havia uma rede de conexão entre as universidades, chamada Bitnet, e queria achar parceiros no Brasil.

Naquela época, nós vivíamos tempos difíceis. Estávamos em plena reserva de mercado, os sistemas computacionais aos quais tínhamos acesso eram muito limitados, os computadores eram basicamente clones de máquinas de fabricantes estrangeiros. Foi uma época de forte regulação das telecomunicações, estávamos em pleno monopólio estatal. Na América Latina, o México privatizou as telecomunicações em 1990, o Chile em 1982, sob a responsabilidade do Florencio Utreras (ex-diretor executivo da RedCLARA), a Argentina em 1994 e o Brasil somente em 1998.

Do ponto de vista filosófico, a Bitnet e a internet foram a mesma coisa. Ainda que a tecnologia fosse diferente, o princípio era o mesmo. Eram  redes cooperativas, com várias organizações diferentes interconectadas para promover a comunicação entre os seus participantes.

Nós enfrentamos muita resistência. O que aconteceu naquela época foi uma ruptura de paradigma. Foi algo como o Uber. Existia um negócio, de comunicações, totalmente regulamentado. De repente, veio uma tecnologia com um modelo de negócios totalmente novo, que tornava algumas regras sem sentido e sobretudo que ignorava as fronteiras transnacionais. A implantação da Bitnet, e depois a da internet, foi, no Brasil, quase um ato de rebeldia, de desobediência civil.

Havia no mundo das telecomunicações um princípio de não trânsito por terceiros. Se houvesse um circuito privativo entre um ponto e outro, o ponto A e o ponto B tinham que pertencer à mesma empresa. Passar tráfego de terceiros, nem pensar. Nas primeiras tentativas que fizemos de contratar esse circuito dos Estados Unidos, recebemos um não. Diante das pressões, a Embratel acabou mandando uma carta dizendo que, em uma primeira fase, de três anos, desde que não houvesse compartilhamento, tudo bem. Óbvio que não aconteceu isso. As linhas foram compartilhadas e depois muita água passou por debaixo da ponte.

Houve um momento em que o Estado brasileiro tentou, de várias maneiras, impedir que uma rede desse tipo prosperasse. Essa não foi uma peculiaridade apenas do Brasil. Na Europa, também houve dificuldade, as telecomunicações eram muito mais reguladas, com as famosas PTTs (do francês Postes Télégraphes et Téléphones), empresas estatais de diversos países que eram muito poderosas. A vertente Bitnet na Europa também teve dificuldades para decolar.

Bitnet 1989 O GloboQuando começou a se pensar nessa interligação entre as várias redes, os órgãos reguladores internacionais criaram um modelo de rede, o OSI ISO (do inglês Open System Interconnection), que acabou não tendo divulgação, pela concorrência direta do modelo TCP/IP, que estava melhor fundado em questões práticas de funcionamento.

O governo brasileiro resolveu adotar isso como uma política, ou seja, as redes abertas no país deveriam seguir o modelo OSI ISO, e isso atrapalhou bastante. Antes da Rede Rio (rede metropolitana do Rio de Janeiro), houve uma outra Rede Rio no passado, quando eu no LNCC, Paulo Aguiar no NCE (Núcleo de Computação Eletrônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro) e outros entramos com um projeto na Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), sobre uma interconexão experimental de microcomputadores com protocolos muito simples, que foi negado pois não seguia o modelo padrão na época.

Percebemos que outras iniciativas de conexão a Bitnet vinham se desenvolvendo em paralelo no Brasil, com destaque para a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). As duas iniciativas tiveram grande crescimento, porque de fato, a ferramenta se revelou extremamente poderosa. Víamos o afã das pessoas em usá-la. Era uma mudança no modo de trabalho para pesquisadores e técnicos. O grande diferencial da Bitnet e, depois da internet, foi a derrubada das fronteiras nacionais. De repente, o mundo ficou pequeno.

Outro marco que teve também foi o esforço do Rio de Janeiro para ter uma rede dentro da cidade, foi a primeira rede TCP/IP. Logo em seguida, veio o esforço para se montar o backbone nacional. A partir daí, a rede cresceu".

Alexandre Grojsgold é atualmente tecnologista sênior do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), coordenador-geral da Rede Rio e diretor técnico da Fundação de Apoio do LNCC (FACC).